Estamos em 2020 e voltamos o olhar para dentro de casa, para o entorno que se desenha a partir desse espaço íntimo. Observamos as coisas no lugar de onde estamos, os objetos em cima de nossas mesas, os livros na estante, as fotografias, os cacos de um espelho quebrado, uma sombra, uma pedra. E, assim, observando de perto, o espaço se abre em dobras, assim como o tempo. É, então, entre espaços privados, que se compõe essa residência artística inusitada. O que temos em comum já não é um lugar geográfico, como acontece nas residências artísticas convencionais, mas um intervalo temporal. O que nos une é a vontade de investigar com o corpo e o pensamento as ficções e fricções deste estranho estado de suspensão. Iniciamos com algumas perguntas: Quais são os gestos artísticos em tempos de pandemia? Podemos nos deslocar sem sair do lugar? Existe alguma coisa neste mundo que não esteja em movimento?
Relembramos passado, histórias silenciadas, fantasmas invisíveis, confrontando o que nos interpela, o desconhecido, o que nos convoca para estarmos presentes e atentos e, ao mesmo tempo, nos fere, dói e desestabiliza. Visitamos outros espaços temporais e imaginários que ganham uma espessura de presente. (Re)inventamos nossas próprias questões, nossos gestos, revemos nossas próprias ferramentas e nossos meios, realizando gestos-imagens, paisagens, tessituras audiovisuais, que informam os trajetos e viagens realizados em este intervalo.

Ines Linke e Lia Krucken

Edson Macallini, Incineóglifos, publicação de em formato digital e impressão em papel pólen 30 x 30 cm, 2020

Limites, deslocamentos, fragmentos, viagens, imagens, trânsitos, fricções, sistemas, realidades, ficções, migrações, gestos, coletas, materialidades, imaterialidades, composições, escritas, objetos, grafismos, artefatos, descartes, naturezas, recortes, paisagens, capturas, momentos, passagens, percursos, trechos. A publicação “incineóglifos” se apropria de objetos descartados, incinerados em lixões urbanos e pedaços de histórias ou notícias de jornais como elementos e dispositivos para tensionar enigmas e realidades. A fim de criar um sistema de verdades ficcionais, assume nas escrituras e imagens compostas no local de retirada dos resíduos incinerados, a fragmentação e os deslocamentos, como sintomas para criar cartografias e fricções em tempos de crises.

Acesse a publicação aqui.

Henrique Reis, (Caatinga) Barbatimão, acrílica sobre papel kraft, 129 x 129 cm

Tendo como ponto de inflexão a palavra “caatinga” a série investiga os encontros entre bioma e força policial que carregam o mesmo nome. Adentrando uma capera tomada por espinhos, passando pelo sertão mítico, guerra às drogas, vegetação e hábitos noturnos.

Julia Milward, Agora, lembro, vídeo (em processo)

Uma mesa vista de cima, em plano (micro) zenital. Superfície branca onde apoiamos cotovelos, que se transforma com as leituras, as referências, o encadeamento dos pensamentos e do acaso, pois, no vídeo “Agora, lembro” parte-se de um bilhete encontrado dentro de um livro de ocasião. Desse elemento de autoria desconhecida surgem reflexões e associações com outras referências e histórias pessoais. Vozes ausentes que se entremeiam no espaço ficcional da lembrança.

Lanussi Pasquali, série Desavessa, 2019-2021, vídeo 4’59”

– Mãe, desavessa pra mim? 

Com a camiseta na mão, esse foi o pedido de meu filho mais novo.

Ele, com a lógica livre e certeira de uma criança, inaugurou essa palavra em mim sem saber da precisão de seu sentido diante do momento vivido. Desavessar… um neologismo possível em língua portuguesa que, como verbo, tenta devolver a vida ao que ela um dia foi.

Lanussi Pasquali, Chegava Setembro, 2021
áudio 53″m

A pele, as entranhas, as dores, os medos… Uma tentativa de voltar ao normal. À normalidade que acreditávamos existir. Mas isso, antes do avesso. Agora, exposto, não há mais ingenuidade. O avesso se mantém mesmo quando não é mais visto. Deixa suas marcas porque experiência. Uma vez no corpo, jamais esquecido. A vida Desavessa…

No horizonte, embora irregular, ansiava pela primavera – principalmente a minha. A expectativa por um jardim florido, perfumado e colorido: uma esperança – embora a florescência seja um ponto intenso de dor. Enfim Chegava Setembro. Não houve primavera. Os presságios eram aflitivos e as palavras ditas emudeceram o canto dos pássaros. O sol do verão. A queimadura. O avesso.

Lara Perl, corrente subterrânea, 2020, vídeo 5’21”.
vozes: julia milward, lia krucken, morani, sarah hallelujah, victor mota
montagem: tomaz loureiro

entre desastres, sorte e azar, prefiro sonhar que superfícies polidas refletem o infinito 

carmela me ensinou a gostar dos gatos meu gato quebrou o espelho quando estávamos chegando na casa pedindo licença para entrar nos cantos da casa carmela me disse que eu deveria cobrir todos os pedaços de qualquer espelho quebrado e na hora do estilhaço vieram os brilhos das mulheres da família dela sara aviva eu não me lembro bem eu sei que cada uma era um mundo e tinha um cheiro e um nome bonito então eu cobri os espelhos porque carmela sabe das coisas eu guardei tudo numa sacola de pão e depois de muitos dias fui abrir como se fossem janelas porque estava sonhando em tocar naquele assombro guardado com tanto cuidado então eu fiz um ritual de corte e reencontrei as imagens e as luzes para abençoar a casa com seus nomes mas não adiantou porque duas semanas depois aconteceu uma coisa terrível meu gato caiu da janela e seu pulmão foi sufocado por uma pancada e ele parou de respirar e eu também parei um pouco e apenas imaginei aquelas mulheres atravessando o deserto até chegar em alguma casa e tenho tentado ver as luzes e lembrar daquela tarde quando ela me mostrou as fotos tenho tentado lembrar da voz e do cheiro das cores das coisas de lá de longe aprender a ler os sinais é urgente e esses dias li que os espelhos têm algo de monstruoso porque multiplicam o número dos homens são abomináveis mas hoje eu comprei um espelho novo e comecei a caminhar pela cidade e lembrei da cidade dos gatos que guardava todo o mistério do mundo e comecei a ver as imagens como a cidade com as luzes daqui e percebi que o momento da quebra dos espelhos anunciou a queda do meu gato esse desastre que me fez chorar por dois dias seguidos sem parar mas que me trouxe a presença de carmela, tão viva.

19 de novembro de 2020

Laryssa Machada, encruzilhada do sul, 2020 (em processo), vídeo 2’33

Santa Bárbara de Encruzilhada, Encruzilhada e, por fim, Encruzilhada do Sul. Localizada a uma latitude 30º32’38” sul e a uma longitude 52º31’19” oeste, foi nessa terra ao sul do Brasil que nasceu minha família paterna. Numa trajetória de lembrar e esquecer, desafogo no mar salgado a mais de 3 mil quilômetros de distância, salvador. Em geografia, longe; em corpo coletor e caminhante, parir o que já está parido. Invasão brazil, invenção brasil. Pindoramas seguimos sonhando. Em encruzilhadas seculares, desatamos a visão.

morani, afemia, 2020, fotografias em lambe, coladas na estação de trem de Nilópolis, 150 x 100 cm (cada)

epígrafe ao fim do mundo como o conhecemos. trabalho de decomposição das palavras-monumentos ainda que/pois sem memória, dependentes da escrita de uma história (e sua temporalidade) que se encerra em meu corpo. abandono da experiência normatizada e objetivada pelo discurso ao encarnar sensibilidades entrópicas, não-localizadas. afemia é a perda da memória para palavras, um distúrbio da linguagem no qual se sabe o que quer ser expressado mas não como ser dito.

Rafael Ramos, Invento, 2020, filme (em processo), super 8mm

Inventário imagético do interior do meu interior. Por onde o sol não se esconde e ilumina as coisas. ‘Invento’ é um filme experimental que documenta a Bahia rural a partir da perspectiva familiar e afetiva. O que me foi contado, não é tão distante assim.

Acesse a obra aqui.

Sarah Hallelujah, Estudo sobre o erro, 2020-2021, fotografia a partir de estudos de imagens com erro de impressão, argila e projéteis de cerâmica

Estudo sobre o erro, como o título indica, compreende estudos de um trabalho ainda em processo de elaboração. Parte da ideia de errância por documentos que constituem a narrativa hegemônica da guerra de Canudos, o massacre do Belo Monte. Investigo a possibilidade da errância se efetivar além do atravessamento físico de um território, mas também pela manipulação, experimentação de diversas ações sobre esses “documentos históricos” da guerra de Canudos: o livro Os Sertões de Euclides da Cunha e as fotografias de Flávio de Barros.

Ambos documentos se efetivam como produção de uma verdade encenada, criaram um apagamento e estigmatização da vida vivida no arraial dos conselheiristas e também de seu extermínio.
Ao imprimir essas imagens em casa a impressora deu erro, esse erro produziu fantasmagorias do que já era assombrado, evidenciou manchas, borrões, resíduos de uma história mal contada, a impressão errada fez gritar o ruído.

Tensionando essas imagens submeto-as ao chão, à argila retirada do açude do cocorobó que submergiu a segunda Canudos. Do barro que guarda a memória de uma guerra modelei projéteis transformados em cerâmica, balas que parecem dedos, falanges, sobrepostas às falanges que destruíram o arraial.

Victor Mota, PAXU, 2021 (em processo), videoarte, 4’17”

Paxu é a tecnologia da mistura entre água e farinha de guerra. Emplastro que se come, cura e cola.